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De um lado, o avanço da longevidade. Do outro, a diminuição dos núcleos familiares. A combinação desses dois fatores cria problemas sociais: quem vai cuidar dos idosos? Onde eles vão morar? Para a arquiteta Maria Luisa Bestetti, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, a solução por condomínios e moradias assistidas se tornou urgente.

Como a arquitetura pode melhorar a qualidade de vida do idoso?
Somos todos impactados pelo ambiente físico, em todas as fases da vida. Porém, nas fases mais frágeis, projetos que ofereçam conforto e segurança certamente melhoram a qualidade de vida. Aspectos tais como conforto ambiental, acessibilidade e adequação de materiais são fundamentais para a qualidade da experiência no ambiente construído e, portanto, na qualidade de vida.

Que mudanças são necessárias nas nossas cidades para o brasileiro envelhecer bem?
É possível perceber que tem havido maior preocupação com a concepção de “cidades para pessoas”, denominação proposta pelo arquiteto dinamarquês Jan Gehl. O conceito envolve a priorização do pedestre e do uso de veículos com baixa emissão de poluentes, o que permite a presença de mais pessoas na rua e, consequentemente, do aumento da segurança pública. Nisso surgem as travessias mais adequadas em distâncias menores, sinalização eficiente, acessibilidade garantida por calçadas e rampas, além de iluminação eficiente e arborização que garanta áreas de sombra em superfícies permeáveis.

Existe alguma cidade brasileira com urbanismo adequado para os velhos?
Há cidades com intervenções importantes, mesmo que ainda não atendam a totalidade das áreas urbanas. Curitiba oferece áreas muito caminháveis e, mesmo em São Paulo, apesar das dificuldades da sua extensão, já apresenta intervenções com esquinas mais seguras para travessias e espaços organizados para apropriação das pessoas, em especial quando apresentam alguma restrição de mobilidade. Um exemplo muito interessante é Pedra Branca, empreendimento localizado no município de Palhoça-SC, onde a caminhabilidade pela prioridade ao pedestre oferece uma experiência intergeracional, confortável e segura.

Qual é o padrão ideal de tamanho, estrutura e localização para a casa de um idoso?
Não há um padrão, sendo importante que as adequações sejam feitas conforme as necessidades de cada indivíduo. A velhice é heterogênea, e depende da história de cada pessoa para determinar suas limitações. De um modo geral, evitam-se excesso de móveis desnecessários, armários muito altos, pisos escorregadios, fios atravessados e tapetes soltos que possam enrolar ou deslizar. Também assentos e camas muito baixos, sendo importante que haja apoios em braços ou suportes firmes. A melhor localização é onde haja suporte social, seja por familiares, seja por amigos, que possam oferecer atenção adequada. A opção por moradias assistidas pode significar um cuidado mais adequado, com atenção e respeito para a criação de vínculos significativos e a garantia de uma vida digna.

Condomínios projetados para idosos estão em crescimento. Se por um lado eles oferecem conforto e segurança, por outro isolam essa população do resto da sociedade. Qual é a sua opinião sobre esses residenciais?
Considero que a criação de condomínios especializados é uma realidade adequada ao crescimento da população idosa em função do aumento da longevidade. Haverá isolamento se estiverem “encerrados” em áreas restritas, sem a presença de outras pessoas e perdendo oportunidades de relações intergeracionais. É preciso estar atento para o fato que idosos ativos podem perder algumas capacidades com o tempo e, portanto, a atenção supervisionada é o que pode garantir o apoio em situações específicas. O que temos visto é a proposta de residenciais exclusivamente para idosos completamente independentes, sem considerar que o processo de envelhecimento continua e pode exigir o cuidado. Portanto, urgem soluções que considerem a permanência no convívio social e, simultaneamente, atendam às necessidades e desejos dos idosos que optam por essa solução de moradia.

É crescente no exterior o sistema de cohousing, também chamado de moradia compartilhada. Esse conceito pode funcionar para a população idosa no Brasil?
Cohousing, batizado no Brasil pela arquiteta Lilian Lubochinski como co-lares, é um sistema de moradia compartilhada considerando a intenção de um grupo em desenvolver um modo de vida colaborativo. Pode funcionar, mas assim como dito anteriormente, é preciso considerar a manutenção da autonomia para a velhice ativa, mas a atenção adequada quando houver limitações, desde que haja familiaridade com as pessoas envolvidas e o engajamento no processo diário, considerando sistemas sustentáveis e organizados.

Em 2050, 30% dos brasileiros serão velhos. Quais serão as condições de moradia para essa população?
Estamos vivendo um processo de aumento da longevidade, em função da mudança de hábitos alimentares e de atividades físicas, assim como do aperfeiçoamento da medicina, cada vez mais preventiva. Por outro lado, as famílias estão menores e com maior mobilidade estrutural, visto que muitas oportunidades de trabalho se apresentam fora do domicílio original. Assim, temos mais idosos e menos cuidadores informais, o que leva a crer que a solução por condomínios e moradias assistidas se tornou urgente, desde que atendam diferentes padrões socioeconômicos e ofereçam ambientes dignos para uma vida com autonomia, mesmo com algumas restrições. Este é o desafio ao qual me dedico, compreender as percepções de idosos institucionalizados quanto às características dos ambientes residenciais coletivos.

Os asilos, rebatizados de instituições de longa permanência para idosos (ILPI), têm uma imagem negativa no imaginário das pessoas. Como a arquitetura pode ajudar a transformá-los em ambientes agradáveis de se viver?
Asilo é um termo já em desuso, pois remete às antigas instituições religiosas que abrigavam pessoas abandonadas e frágeis, desde mendigos e idosos até pessoas com deficiências. O termo ILPI – Instituições de Longa Permanência para Idosos – foi definido pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia como tradução do termo em inglês, e difundido pela Anvisa em 2005. Infelizmente, ainda encontramos denominações tais como Lar dos Velhinhos, Casa de Repouso e Clínica Geriátrica, denotando o preconceito que ainda existe em relação à essa solução de moradia. É preciso rever a oferta desses serviços através de tecnologia como coadjuvante do cuidado e da revisão de processos, de modo a atender as demandas desta e das próximas gerações de idosos. Encontrar soluções que mantenham a autonomia que originalmente os idosos tinham em suas casas, além de estimular a convivência e a atividade, são meios de tornar os ambientes agradáveis. Igualmente é importante rever os sistemas de cercamento, visto que muros altos podem proteger mas também segregam, o que causa isolamento e uma imagem negativa por gerar sugestões errôneas ao imaginário da sociedade em geral.