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As pessoas não querem parar de trabalhar quando atingem idade de se aposentar. Ao contrário: desejam continuar produtivas, mesmo aquelas com uma situação financeira bem resolvida. Esse é o cenário para a maioria dos profissionais atendidos pela mestre em gerontologia social Denise Mazzaferro. Sócia da Angatu IDH, empresa especializada em transição de carreira para profissionais com mais de 50 anos, Mazzaferro acredita que não faz sentido atravessar a velhice longe da atividade que dá sentido à existência: o trabalho.

Trabalhar na velhice é uma penalização?
Não. Penalização é deixarmos as pessoas que se encontram nesta fase sem sonhos e marginalizadas na sociedade. Com a longevidade, a velhice, que no Brasil se inicia aos 60 anos, passa a ser a maior etapa das nossas vidas. Não consigo pensar que, se viveremos facilmente até os 75 anos (expectativa de vida do brasileiro), passaremos tanto tempo distantes de um trabalho que nos dá sentido à existência. Precisamos buscar projetos, sonhos, enfim, nosso propósito.

As pessoas querem parar de trabalhar quando já têm idade para se aposentar?
Em nossa atuação profissional, não é com isso que nos deparamos. Ao contrário, as pessoas não querem parar de trabalhar quando atingem idade para se aposentar. A grande maioria ainda precisa continuar gerando renda para manter ou não baixar demais seu padrão de vida. Mesmo aqueles cuja situação financeira está mais bem resolvida desejam continuar ativos. O trabalho nos confere sensação de utilidade e pertencimento. Não é a toa que os dias da semana são chamados de “úteis”. O que existe, sim, é uma vontade de mais flexibilidade de horário e de outra dinâmica. As pessoas querem resgatar sonhos antigos e iniciar uma nova carreira, um novo projeto de vida.

As instituições precisam rever suas políticas de aposentadoria compulsória?
Sim, os profissionais de RH devem se adaptar à longevidade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2025, o Brasil será o sexto país com o maior número de idosos no mundo. Em 2060, teremos 25% da população com mais de 65 anos. Olhando para estes dados, fica claro que todas as políticas deverão ser revistas, afinal, não podemos imaginar 25% da população sem trabalho. Além disso, equipes intergeracionais são valiosas e produtivas. As novas fases da nossa vida não serão mais ditadas cronologicamente, e sim pelo momento que estamos vivendo.

Fazer a mesma coisa por 40, 50 ou mais anos pode ser entendiante. É possível ter mais de uma carreira ao longo da vida?
Para mim, é muito entediante! Gostaria de começar com um questionamento ao leitor: como podemos acreditar que a escolha profissional que fizemos aos 17 anos, sem nenhum conhecimento do mundo, nos servirá para os próximos 60 anos? No meu caso, me formei em administração de empresas aos 21 anos e trabalhei por 22 anos no mundo corporativo. Tive uma carreira bem sucedida. Porém, aos 40 anos, minha relação com o trabalho não era de tédio, mas sim de certa tristeza. Graças a um bom planejamento financeiro e apoio do meu marido, decidi me reinventar. Fiz mestrado em Gerontologia Social na PUC-SP e iniciei minha nova carreira. Em 2013, fundamos a Angatu IDH e, em 2015, escrevi o livro Longevidade – Os Desafios e as Oportunidades de se Reinventar, junto com o Renato Bernhoeft. Consegui resgatar algo que nem percebi que havia perdido: o brilho nos olhos. Seria esta minha última reinvenção? Com certeza, não. Precisamos nos conhecer e sempre buscar o que nos dá sentido à vida.

Como se preparar para uma transição de carreira?
Com planejamento, aumentando o leque de oportunidades. Precisamos nos preparar para as transformações correntes no mundo do trabalho. O emprego está diminuindo para qualquer idade. É necessário estarmos preparados para sermos prestadores de serviço, em vez de empregados no regime CLT. Precisamos aprender a nos vender e entender as novas formas de comercialização de serviços que estão disponíveis nas redes. O futuro nos mostra as fábricas transformando-se para uma realidade de prestação de serviços.

O que pode facilitar essa transição?
Quanto maior for nossa bagagem e mais diversificadas nossas experiências, mais preparados estaremos para uma transição profissional. Fazer um curso de gastronomia, por exemplo, pode parecer não ter serventia imediata. No entanto, ele poderá ser utilizado para uma transição no futuro. É muito importante também cuidarmos de nossa saúde física e emocional, além de ter um bom planejamento financeiro.

Como as pessoas velhas podem sobreviver profissionalmente em um mercado cada vez mais dominado pela inovação tecnológica?
Se mantendo atualizadas. A informação está muito mais acessível. Lidar com a tecnologia, pelo menos aquela de que precisamos para nos virar no dia a dia, está cada dia mais fácil. Temos tudo à mão em tutoriais gratuitos no Youtube. Já não vejo a tecnologia como uma barreira para os mais velhos, pois eles estão se conectando. E isto acontecerá numa velocidade cada vez mais rápida. Precisamos compreender que, em todas as esferas das nossas vidas, o sucesso está na diversidade, mais especificamente na soma que ela é capaz de proporcionar. No caso da diversidade etária, ela é capaz de juntar experiência, criatividade, tecnologia e inovação. Atualmente, estamos subtraindo a experiência dos mais velhos e ficando com a tecnologia dominada pelos mais jovens. Esta conta não trará bons resultados nem para a sociedade e nem para a economia.