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Para encerrar dois dias de imensa celebração e aprendizado, convidamos uma pessoa que, para nós, traz um exemplo de coerência e integridade em tudo o que faz, em seus mais de 80 anos de vida. Fernanda Montenegro dividiu o palco com Abilio Diniz e, apenas com a leitura do prefácio de um de seus livros, foi capaz de emocionar e homenagear a vida de nosso anfitrião. A palestra foi quase uma conversa entre os dois, que dividiram com todos os presentes suas ideias e sensações sobre o privilégio de adentrar o clube dos 80 anos de idade com plenitude e prazer.

SOMOS QUEM ESCOLHEMOS SER

Para a atriz Fernanda Montenegro, um elemento muito importante para uma vida mais feliz e longeva é o caminho da vocação. Nós recebemos uma herança genética e social de nossas famílias e dentro dela, somos capazes de criar nossa história. De fazer nossas escolhas dentro de cada batalha e chegar lá. É possível transcender diferentes tipos de heranças e níveis sociais, construir um caminho até o outro lado e sobreviver. E isso tudo só é feito se tivermos uma vocação avassaladora e vivermos de acordo com ela.

Alguém pode até aparentar ter excelentes resultados econômicos, sociais e políticos em sua vida. Mas se ele ou ela não estiver dentro de sua real vocação, fracassou. Assim, devemos nos focar sempre na grande pergunta, que é: “Eu estou fazendo o que quero fazer?”, ou ainda “Eu estou realmente dentro daquilo para o qual eu me sinto destinado, dentro da minha vida, a ser?”. Quando estamos cumprindo nossa vocação, encontramos o sucesso e a realização, junto à glória de ter amigos.

Mudar de decênio é sempre assustador. O senso de finitude vem acompanhado de muitos questionamentos. O que será do resto de minha vida? Para iluminar esse ponto, Fernanda dividiu uma oração de João XXIII, que diz “viva cada dia e cada noite. Ao acordar, se dormiu e acordou, agradeça. Se atravessou o dia e sobreviveu, agradeça. E novamente no outro dia, se acordar pela manhã, agradeça aquele dia”. Se pensarmos muito no que será nessa altura da vida, ficaremos deprimidos. E não adianta nada: melhor é pensar no que é, pensar em cada dia, vivido plenamente.

Aos 80, não é mais hora de ficar pensando no futuro. É hora de viver. E agradecer tudo o que a vida trouxe e tudo o que a vida evitou. Somos oficiantes na vida, que em si não deixa de ser um ato teatral, um encontro humano, coisa rara e cara no mundo eletrônico de hoje. Por fim, um pouco de contemplação e fé na vida fazem bem. É necessário agradecer e enfrentar cada dia com fé, porque cada segundo é pleno. E por enquanto, é essa a vida que nós conhecemos.