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O biólogo francês Hugo Aguilaniu dedicou-se a estudar as bases genéticas dos processos de envelhecimento. Por meio de pesquisas com um animal chamado Caenorhabditis elegans, espécie de minhoca do tamanho de uma vírgula, descobriu que é possível manipular o tempo de vida dos seres alterando fatores como genes e nutrição. De acordo com Aguilaniu, o objetivo da ciência não é somente prolongar a longevidade humana, mas também fazer com que as pessoas tenham saúde por mais tempo. O francês é presidente do Instituto Serrapilheira, instituição privada sem fins lucrativos com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.

É verdade que já está entre nós a pessoa que viverá 200 anos?
Eu diria que é improvável. Os humanos mais velhos têm cerca de 115 anos, e a longevidade máxima registrada é de 122. A expectativa de vida média está aumentando com velocidade calculada. Logo, estatisticamente, a pessoa que vai viver 200 anos ainda não nasceu. Mas existe uma incógnita. Os indivíduos que hoje têm 110 ou 115 anos nunca se beneficiaram de tratamentos contra o envelhecimento, que existirão daqui a cinco ou dez anos. A expectativa de vida dará um salto. Creio que será algo na escala de 81 para 91 anos, não de 91 para 200 anos. No entanto, é muito provável que um dia alguém completará 200 anos.

Para a ciência, o que significa envelhecer?
Do ponto estatístico, a velhice significa o aumento da probabilidade de morrer com o passar do tempo. Existe um momento denominado ponto de inflexão, quando o risco de morte aumenta muito, de 65 a 70 anos. Mas nós usamos mais a definição biológica. Nesse caso, a velhice é a deterioração de funções fisiológicas, celulares e sistêmicas. A impermeabilidade do intestino, por exemplo, que é a função de extrair o necessário dos alimentos, pode se alterar com o tempo, a ponto de comprometer a sobrevivência do indivíduo.

Por que a ciência está focada em melhorar a qualidade de vida das pessoas, mais do que em prolongar a vida?
Quando os estudos em longevidade ganharam força, no fim dos anos 1980, a comunidade científica dedicou-se a compreender o envelhecimento. Ao manipular genes e nutrição, conseguimos prolongar de 17 para 300 dias o tempo de vida de uma espécie de minhoca chamada Caenorhabditis elegans. Em 2005, descobriu-se que era possível replicar o modelo para mamíferos e, provavelmente, humanos também. Porém, os cientistas perceberam que não adianta ter longevidade sem saúde, e as pesquisas mudaram de foco. A questão agora é como ter um envelhecimento harmonioso.

Qual é o limite da idade para uma pessoa viver com qualidade de vida hoje?
Calcula-se que as pessoas tenham, atualmente, um período de cinco a dez anos de saúde precária na velhice. As principais causas de morte são três: câncer e doenças metabólicas e neurodegenerativas. O grande problema são as neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Não há avanços significativos nessa área. O objetivo da ciência é aumentar a longevidade e, ao mesmo tempo, encurtar o sofrimento no fim da vida. Embora seja exceção, existem indivíduos que morrem com saúde. Estão muito bem e, de repente, apagam. Só tem vontade de viver mais quem está bem. Pessoas com doenças não suportam mais sofrer. Eu pedi para muitos idosos resumirem em uma palavra o que é envelhecer. Cerca de 90% disseram: dor. Envelhecer dói. Isso não é bom e tem que mudar.

Quais são as perspectivas para o uso de células-tronco como terapia de rejuvenescimento?
Essa é uma terapia ainda experimental e com vários problemas. Quando injetamos células-tronco em animais, nascem tumores. Vai demorar até podermos realizar o procedimento com segurança. As maiores esperanças, hoje, estão em tratamentos derivados de estudos genéticos. Uma das promessas é um ensaio clínico com moléculas de metformina, usada no combate ao diabetes. Já se sabe que há um impacto positivo desse remédio no prolongamento da vida, então a ideia é usá-lo em doses menores para tratar pessoas não diabéticas.

O ser humano vai superar a morte algum dia?
Existem animais que não envelhecem ou envelhecem pouco, como as hidras, porque cada célula sua se regenera. Eles morrem de outras causas, como ataques predadores, mas não pelo envelhecimento. Já o ser humano tem essa capacidade basicamente nas células de reprodução, não nas demais. No nosso caso, quanto mais específica é a função de uma célula, mais ela envelhece. Os neurônios, por exemplo, perdem completamente a capacidade de regeneração. Para não morrermos, todas as nossas células teriam de voltar milhões de anos de evolução para adquirir capacidade de se regenerar. Hoje, não há nenhuma indicação científica de que isso será possível.

Foto: Ricardo Borges/ Instituto Serrapilheira