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No livro A Velhice, publicado em 1970, a escritora francesa Simone de Beauvoir retrata o envelhecimento como um período cruel. Impactada pela obra, a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dedicou-se a estudar como seria possível construir uma bela velhice. Em suas pesquisas, que resultaram no livro A Bela Velhice (Ed. Record) ela descobriu que envelhecer hoje, não é como no tempo de Simone de Beauvoir, e que homens e mulheres encaram a maturidade de maneiras diferentes.

O que é a bela velhice?
Criei esse termo a partir do livro de Simone de Beauvoir. Ele fala das crises, misérias e problemas da velhice, mas em um pequeno trecho diz que é possível criar uma bela velhice, tendo projetos de vida. Inspirada nessa passagem, busquei entender, na minha pesquisa com 5 mil homens e mulheres, como é possível viver com saúde, alegria e projetos depois dos 60, 70, 80, 90 anos. O que eu tenho descoberto, principalmente com as pessoas mais velhas – há três anos e meio só pesquiso aqueles com mais de 90 –, é que a velhice pode ser, e é, o melhor momento da vida. Então, eu quis chamar de bela velhice para tirar o estigma do envelhecimento. Grande parte dos brasileiros está envelhecendo de forma positiva, com uma saúde administrável, dinheiro suficiente para viver bem e, principalmente, mais liberdade e felicidade.

Uma bela velhice depende da personalidade da pessoa ou de escolhas que ela faz na vida?
Eu diria que é uma mistura de motivação interna com projetos que dão uma razão para levantar de manhã com alegria. Além disso, é preciso adotar uma postura diferente daquele que só reclama, critica e está focado nos problemas, doenças e faltas. As pessoas que estão inventando uma bela velhice focam no presente e valorizam aquilo que possuem. Não ficam se comparando com as outras, nem nostálgicas do passado. Elas são extremamente gratas pela vida e querem aproveitá-la ao máximo. Essa é uma postura que a gente pode e deve cultivar bem mais cedo, assim como projetos, amizades, risadas e saúde para ter um envelhecimento feliz.

O que mudou na sociedade desde que Simone de Beauvoir publicou seu livro?
Mudaram as representações sobre a velhice e as experiências de envelhecimento. As pessoas perceberam que a velhice não é uma ruptura, mas uma continuidade. Não é só que estamos vivendo mais, mas de forma diferente. Se a Simone de Beauvoir se achava velha aos 40 anos, hoje uma mulher de 60, 70, 80 e até 90 não se percebe velha, e sim plena. Temos vários exemplos de pessoas que chegam aos 60 anos, e até muito mais, cheias de projetos, amores, às vezes dando uma reviravolta na vida e recomeçando, estudando, trabalhando.

Existe um mito de que os homens envelhecem melhor do que as mulheres. No seu livro, você diz que a realidade é a oposta. Por quê?
Pessoas de todas as idades dizem que o homem envelhece muito melhor do que a mulher. Afirmam que para ele a aparência não conta tanto, que ele não tem problemas com rugas e ganho de peso. Só as mulheres de mais de 60 anos discordam dessa afirmação, porque elas investiram muito mais na saúde, foram muito mais aos médicos, cuidaram mais da pele e dos dentes, se exercitaram mais. Quando chegam aos 60 ou mais, percebem que os homens não fizeram tudo isso, não têm amizades e colocaram toda a identidade na profissão. Então, elas reconhecem que alimentaram um mito. O homem não envelhece melhor do que a mulher, em termos de relacionamento social e, inclusive, de aparência física e de saúde, tanto é que eles morrem, em média, cerca de oito anos antes do que elas. E uma coisa muito importante: eles não sabem viver sozinhos, por isso recasam. Já as mulheres são cheias de amigas, projetos e sonhos que querem realizar nessa fase da vida, e não precisam de homem para isso.

Por que, segundo sua pesquisa, a mulher tem mais medo de envelhecer do que o homem?
Quando jovens, elas têm pânico da perda do corpo jovem, magro e sensual como capital. Por isso, as brasileiras investem tanto em cirurgia plástica estética, Botox, preenchimento, tintura para cabelo e remédio para emagrecer. No entanto, na faixa dos 60 anos, elas percebem que seu principal capital não é o corpo nem o homem, mas a liberdade. Na maturidade, as mulheres conquistam aquilo que mais invejam nos homens: a liberdade. Por isso elas perdem o medo de envelhecer e cultivam a liberdade e as amizades, além de projetos.

O que homens e mulheres valorizam na velhice?
Existe uma diferença de gênero interessante no envelhecimento. Enquanto as mulheres falam de liberdade, os homens citam família, afeto e casa. Os dois ganham com a velhice: elas, liberdade e tempo para si mesmas; eles, afeto. Vejo certo descompasso. Por isso há tanta separação e recasamento nessa faixa etária. Os projetos do casal que está junto há tanto tempo podem ser muito diferentes.

Você afirma que a grande conquista das mulheres na velhice é a liberdade. É preciso ser velha para ser livre?
Pesquiso mulheres dos 18 aos 99 anos. As mais mulheres livres têm acima de 60 anos, porque estão mais maduras e sabem o que querem. Elas não focam nas faltas, não ficam se comparando, não se preocupam tanto com a opinião alheia. E ligam, como elas mesmas dizem, o botãozinho do f***-se. Tudo isso é muito mais fácil de conquistar quando você é mais madura, segura e certa do que quer. Lógico que existem mulheres jovens que têm essa liberdade. Mas, proporcionalmente, encontro muito mais mulheres jovens que reclamam não ter tempo para cuidar de si, a liberdade e o reconhecimento que tanto desejam.

O que são as pessoas “ageless” ou sem idade?
Quando comecei a escrever sobre a bela velhice, me deparei com esse termo ageless, ou sem idade, muito usado dos Estados Unidos. Trata-se daquelas pessoas que não se rotulam por ter 30, 40, 50, 60 ou 70 anos. Gosto de dar o exemplo do Ney Matogrosso, Fernanda Montenegro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Marieta Severo e Rita Lee e tantos outros, que continuam com seus projetos, não se aposentam de si. As pessoas ‘ageless’ não deixam a idade definir quem elas são e o que querem da vida. Continuam amando, transando, passeando, viajando, trabalhando, criando, cantando, dançando e não ligam para o rótulo da idade.