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Quem chega à velhice não necessariamente derrotou alguma doença crônica, mas encontrou outros recursos para não desenvolvê-la. “Os longevos evitam essas doenças graves por meio de uma série de medidas que muitas vezes dependem de conexões duradouras e significativas com outras pessoas”, diz o psicólogo Howard S. Friedman, professor de psicologia da Universidade da Califórnia.

Em parceria com a colega Leslie Martin, ele escreveu O Projeto Longevidade, lançado em 2012, no Brasil, pela editora Prumo. A obra é uma compilação das descobertas realizadas ao longo de oito anos de pesquisa. Ele examinou a longevidade das 1.500 crianças de Lewis Terman – psicólogo da Universidade de Stanford, que em 1921 selecionou os melhores estudantes para analisar os fatores que levam ao sucesso intelectual.

O estudo de Friedman é uma tentativa de responder às perguntas: “Quem vai viver mais tempo? E por quê?”. Mas tendo como base traços de personalidade, relacionamentos, experiências e planos de carreira.

A equipe da revista da Associação Americana de Psicologia, a Monitor on Psychology, falou com Friedman sobre algumas de suas mais controversas descobertas – incluindo a ideia de que o estresse não é necessariamente tão ruim para a saúde.

Por que é tão importante que os psicólogos estejam envolvidos no tema “longevidade”?
HF: Sabe-se há muito tempo que o modelo biomédico tradicional de doença – que você é saudável até ficar doente – é seriamente defeituoso. Os psicólogos estão provavelmente melhor posicionados para corrigir essa abordagem biomédica ultrapassada. Estamos descobrindo as muitas maneiras pelas quais o bem-estar físico e o bem-estar subjetivo são os dois lados da mesma moeda. É hora de enterrar as distinções falhas entre saúde mental e física. É por isso que vejo O Projeto Longevidade como um potencial de troca de paradigmas, não um manual de “como fazer”.

O que atraiu o senhor para o estudo de Terman?
HF: Em 1989, fiquei frustrado com o desenvolvimento da pesquisa sobre diferenças individuais, estresse, saúde e longevidade. Ficou claro que algumas pessoas eram mais propensas a doenças, demoravam mais para se recuperar ou morriam mais cedo, enquanto outras da mesma idade conseguiam prosperar, mas não havia uma boa maneira de testar explicações a longo prazo. Eu não me importava muito se os estudantes estressados ​​pegassem gripe na época do exame – eu queria saber quem era mais propenso a desenvolver câncer ou doenças cardíacas e morrer antes do tempo. Mas como fazer tal estudo? Mais perturbador, eu estaria morto há muito tempo antes que os resultados chegassem. Um dia me ocorreu construir sobre os dados de Terman, estendendo o estudo que começou em 1921. Planejei passar um ano debruçado no projeto, mas passaram duas décadas e eu ainda estou nele. Uma quantidade tremenda de novas informações precisava ser coletada e refinada. As análises estatísticas são muito complexas. Mas adoro descobrir coisas importantes sobre saúde e longevidade que ninguém jamais imaginou serem fundamentais. E, felizmente, a persistência acaba sendo um dos melhores indicadores de saúde e vida longa.

A pesquisa de Terman concentrou-se principalmente em crianças brancas de famílias de classe média. Que efeito você acha que isso tem na extrapolação das descobertas para outros grupos?
HF: A amostra de Terman é o único estudo em grande escala ao longo da vida, continuamente detalhado, de meninos e meninas inicialmente saudáveis. Porque eles tinham acesso a cuidados médicos e educação, porém grande variedade de personalidades e relações sociais – uma excelente amostra para estudar as diferenças individuais. Há estudos que documentam a relevância do status socioeconômico, etnia e inteligência geral para a saúde. O Projeto Longevidade vai além e produz uma visão biopsicossocial profunda sobre essas associações de nível macro. É emocionante que nossas principais descobertas estejam sendo confirmadas por outros pesquisadores.

Qual é a descoberta mais surpreendente da sua pesquisa?
HF: A descoberta de muitas evidências de que ficar doente não é aleatório. Pelo contrário, existem grandes diferenças na suscetibilidade a lesões e doenças. Algumas delas têm a ver com a personalidade. Outras, com as relações sociais, incluindo casamento, família, amizade e observância religiosa. O mais surpreendente é descobrir que os fatores de risco e os escudos de proteção não ocorrem isoladamente, mas se agrupam em padrões. Por exemplo, os meninos inconsequentes – embora muito brilhantes – tinham maior probabilidade de, ao crescer, ter casamentos pobres, fumar e beber mais, obter menos educação e ser relativamente malsucedidos no trabalho. E eles morreram em idades mais jovens. Tais riscos à saúde e desafios de relacionamento, como o divórcio, são geralmente estudados de forma independente, o que acho um grande erro. Por outro lado, certas personalidades tiveram mais conquistas, melhores relações sociais e outros elementos de prosperidade que levaram a vidas mais longas e saudáveis.

Leia a entrevista completa aqui. Assista ao vídeo aqui.